terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Velho Carnaval

 Fui à varanda. Nem vivalma! Terça feira de Carnaval e nem vivalma. 

A tradição já não é o que era. E nem volta a ser. 

Lembro-me da chegada do Carnaval a casa. Uma azáfama. Do fundo da gaveta da cómoda do quarto aparecia tímido o que restava de um batom  de uma mocidade perdida. A boca era desenhada e preenchida com cuidado. O cabelo era penteado minuciosamente num rabo de cavalo e a franja repartida colava-se aos lados para dar lugar a um caça-rapazes dos loucos anos vinte, de geometria rigorosa e fixa. O toque final provinha da cabeça de um fósforo apagado que alindava o rosto expectante com um sinal preto no meio da bochecha. Depois vinham os retalhos da chita que compunham o traje de cigana: saia comprida, uma qualquer blusa já desbotada pelo uso e um triângulo traçado a fingir de xaile. Ui! Era outro pedaço de gente. Sentia-me artista. E lá ia eu escadaria abaixo, direta à rua, juntar-me ao resto da moçanhada que esperava entre gargalhadas e gritos. Tínhamos permissão para percorrer a nossa rua e as duas outras adjacentes. Havia papelinhos, rolos de fitas e pistolas de água. Era uma espécie de recreio com hora de começar e de acabar. Quando começava a escurecer ouviam-se os chamados de algumas mães, mas o toque e recolher era para todos. Nada como a terça feira de Carnaval para fingirmos o que não éramos, o que gostaríamos de ser ou o que nunca quereríamos ser. 

Hoje, são os cortejos carnavalescos que vão mantendo alguma chama. Fora isso, já ninguém precisa de matrafonas ou mascarinhas nesta época. Isso já é o traje do dia a dia. Andamos mascarados o ano todo, umas vezes somos o que somos, outras pretendemos ser, outras ainda são protesto do que não queremos ser.

A Vida são dois dias, o Carnaval são três e o dia de hoje já está por conta! 

 

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