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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Anjos e Demónios

 Terminou com a absolvição da  Joana Marques o processo movido contra a humorista pelos elementos do grupo "Anjos". O desfecho só podia ser este.

Humberto Eco pôs o Riso como questão central em "O Nome da Rosa" . O medo do riso desaguou em morte porque a Igreja escondeu A Comédia de Aristóteles dos olhos dos monges tão virginais quanto pecadores, com o argumento quase dogmático que quem ri desvia-se do entendimento sério da Obra Divina. Mas se foi Deus que criou o Homem, deu-lhe também a capacidade de rir, então o riso expressa a liberdade face ao medo. 

No caso dos "Anjos", músicos reconhecidos, o medo do ridículo por uma infeliz atuação desaguou numa vitimização da situação e na culpabilização da humorista, que nada mais fez do que divulgar o mau desempenho numa única música, por sinal o Hino de Portugal. 

Foi de rir até às lágrimas. Venceu o riso. Venceu a liberdade de expressão. 

Extremamente… improvável: o processo milionário dos Anjos contra Joana  Marques esbarra na liberdade de expressão ("provavelmente", como quase  sempre) - CNN Portugal 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Censos e o Planeamento (ou a falta dele)

 Quando há uns anos precisámos de creche para as crianças, ia-se dando uma tragédia familiar. As públicas eram muito poucas e os critérios de admissão tocavam as raias do absurdo, e as privadas justificavam os preços também absurdos com todas e mais algumas atividades para entreter as criancinhas. Perante esta contingência, desenhou-se a hipótese do despedimento da mãe e o apertar do orçamento familiar. Felizmente apareceu uma ama particular, falha de certificados ou licenças, mas carregadinha de amor e bom senso.

Lembro-me que nessa altura, o Algarve apresentava uma alta taxa de natalidade que justificaria um planeamento a longo prazo das autarquias relativamente a esta questão dos filhos e dos casais trabalhadores. Pouco se fez.

Agora temos resultados dos censos e sabemos que a nossa população levou um rombo enorme. Falta gente, muita gente. 

Sei que as autarquias têm gabinetes que estudam estes dados, e acima delas está o governo que também deve ter gabinetes semelhantes. Então é altura de se avançar com um planeamento estrutural, de vistas largas e ambiciosas, até porque está a chegar dinheiro fresco da Comunidade e é imperativo que ele seja bem empregue, desde a nascente até à foz. Proporcionar aos casais jovens habitação de baixo custo e  aproveitar estruturas existentes para fazer surgir creches e jardins infantis, seriam exemplos de itens a serem considerados. 

Planear o futuro é preciso, e fazer chegar a todos o que todos necessitam, sem que a burocracia fale mais alto e esfarrape o a acesso a esse futuro.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Filmes da Vida

Acabei ainda há pouco de ver o filme " As Serviçais". Tarde de repouso, lembrei-me de uma modernice cá de casa e fui revirar a caixa à procura de qualquer coisa. Dei com o filme.
Tocou-me muito, este filme, por várias razões: a perspetiva do narrador, o contexto político e social, as relações humanas.Normalmente, a História escreve-se do ponto de vista de quem domina, mas as histórias dessa História têm outra cor e movimento quando vistos pelos olhos de quem é dominado. Aqui fere muito o separatismo racial da América dos anos 60. Não só pelos grandes traços - acessibilidades, educação, trabalho - mas, e sobretudo, pelas pequenas coisas do dia a dia, como por exemplo o uso da casa de banho pelas criadas na casa dos patrões ou  o amor incondicional das criadas de bebés brancos que raramente tinha retorno em anos posteriores. Comovente, o medo de falar, de contar cada história individual, mas que se transforma no motor da luta pelos direitos cívicos, o direito de ser tratado como gente.
A América, senhora do Mundo, não consegue apagar do seu passado, e até mesmo do seu presente, esta contradição e ironia: primeira defensora dos direitos dos Homens através de uma Constituição única, ela ainda pensa a preto e branco.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Casamento da Culpa

Encontrei estes versos num comentário do face e não resisti. A Culpa, coitada, bem quer morrer solteira mas não a deixam. Tantos pretendentes, incluindo cada um de nós. Todos somos culpados de alguma coisa, quanto mais não seja de não termos culpa de coisa alguma...
Na minha profissão, então,é ver quem atira mais culpas em modo olímpico: mais alto, mais forte, mais longe. E a maior parte das vezes é tão simples de ver que a culpa está tão somente em nós próprios. Pequenez, arrogância, acriticismo, (sei lá!), tolda-nos a perspetiva e a cor da realidade.

A culpa é do pólen dos pinheiros
Dos juízes, padres e mineiros
Dos turistas que vagueiam nas ruas
Das 'strippers' que nunca se põem nuas.

Da encefalopatia espongiforme bovina
Do Júlio de Matos, do João e da Catarina
A culpa é dos frangos que têm HN1
E dos pobres que já não têm nenhum.

A culpa é das prostitutas que não pagam impostos
Que deviam ser pagos também pelos mortos
A culpa é dos reformados e desempregados
Cambada de malandros feios, excomungados.

A culpa é dos que têm uma vida sã
E da ociosa Eva que comeu a maçã
A culpa é do Eusébio, que já não joga a bola,
E daqueles que não batem bem da tola.

A culpa é dos putos da casa Pia
Que mentem de noite e de dia
A culpa é dos traidores que emigram
E dos patriotas que ficam e mendigam.

A culpa é do Partido Social Democrata
E de todos aqueles que usam gravata
A culpa é do BE, do CDS, do PS e do PCP
E dos que não querem o TGV.

A culpa até pode ser do urso que hiberna
Mas não será nunca de quem nos governa