terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Velho Carnaval

 Fui à varanda. Nem vivalma! Terça feira de Carnaval e nem vivalma. 

A tradição já não é o que era. E nem volta a ser. 

Lembro-me da chegada do Carnaval a casa. Uma azáfama. Do fundo da gaveta da cómoda do quarto aparecia tímido o que restava de um batom  de uma mocidade perdida. A boca era desenhada e preenchida com cuidado. O cabelo era penteado minuciosamente num rabo de cavalo e a franja repartida colava-se aos lados para dar lugar a um caça-rapazes dos loucos anos vinte, de geometria rigorosa e fixa. O toque final provinha da cabeça de um fósforo apagado que alindava o rosto expectante com um sinal preto no meio da bochecha. Depois vinham os retalhos da chita que compunham o traje de cigana: saia comprida, uma qualquer blusa já desbotada pelo uso e um triângulo traçado a fingir de xaile. Ui! Era outro pedaço de gente. Sentia-me artista. E lá ia eu escadaria abaixo, direta à rua, juntar-me ao resto da moçanhada que esperava entre gargalhadas e gritos. Tínhamos permissão para percorrer a nossa rua e as duas outras adjacentes. Havia papelinhos, rolos de fitas e pistolas de água. Era uma espécie de recreio com hora de começar e de acabar. Quando começava a escurecer ouviam-se os chamados de algumas mães, mas o toque e recolher era para todos. Nada como a terça feira de Carnaval para fingirmos o que não éramos, o que gostaríamos de ser ou o que nunca quereríamos ser. 

Hoje, são os cortejos carnavalescos que vão mantendo alguma chama. Fora isso, já ninguém precisa de matrafonas ou mascarinhas nesta época. Isso já é o traje do dia a dia. Andamos mascarados o ano todo, umas vezes somos o que somos, outras pretendemos ser, outras ainda são protesto do que não queremos ser.

A Vida são dois dias, o Carnaval são três e o dia de hoje já está por conta! 

 

Máscara Carnaval Veneziano Branca | Partimpim.pt 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Anjos e Demónios

 Terminou com a absolvição da  Joana Marques o processo movido contra a humorista pelos elementos do grupo "Anjos". O desfecho só podia ser este.

Humberto Eco pôs o Riso como questão central em "O Nome da Rosa" . O medo do riso desaguou em morte porque a Igreja escondeu A Comédia de Aristóteles dos olhos dos monges tão virginais quanto pecadores, com o argumento quase dogmático que quem ri desvia-se do entendimento sério da Obra Divina. Mas se foi Deus que criou o Homem, deu-lhe também a capacidade de rir, então o riso expressa a liberdade face ao medo. 

No caso dos "Anjos", músicos reconhecidos, o medo do ridículo por uma infeliz atuação desaguou numa vitimização da situação e na culpabilização da humorista, que nada mais fez do que divulgar o mau desempenho numa única música, por sinal o Hino de Portugal. 

Foi de rir até às lágrimas. Venceu o riso. Venceu a liberdade de expressão. 

Extremamente… improvável: o processo milionário dos Anjos contra Joana  Marques esbarra na liberdade de expressão ("provavelmente", como quase  sempre) - CNN Portugal 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Pré - Qualquer Coisa

  Nobel da Paz: quem escolhe e como funciona eleição do vencedor, que será  anunciado nesta sexta

 

Andam os grandes países deste mundo em grande azáfama para encontrarem um denominador comum que permita acabar com a guerra na Ucrânia. Ora o grande promotor desta azáfama é o incontornável presidente dos Estados Unidos.

Ávido de protagonismo, Trump desenvolveu, desde que tomou posse, estranhos hábitos de lidar com a economia mundial, avançando com taxas e tarifas exorbitantes que logo de imediato reduz, possivelmente aconselhado pelo contabilista da Casa Branca. Posto que angariou fama de aventureiro de visão única e antes que os seus eleitores se sentassem a fazer as contas que importam, Donald lança-se na política externa com toda a pujança, metendo-se em tudo quanto é conflito armado instalado ou por instalar. Meteu o homem na cabeça que tem o perfil próprio e adequado para ganhar o Prémio Nobel da Paz. Nem mais!

A Europa da União e fora dela anda num rebuliço, os líderes desdobram-se em reuniões e entrevistas  televisivas, os telefonemas e mensagens surgem como  tsunamis. Donald Trump faz afirmações cáusticas de manhã para de tarde dizer tudo e o seu contrário.

Estamos em fase de pré - qualquer coisa, que ainda não se descortinou muito bem: pré - Nobel? pré - paz na Ucrânia? 

Concluindo num jeito bem português - nem o pai morre nem a gente almoça.

Ah! uma palavrinha para o sr. Putin - palavras poucas, orelhas moucas. E ameaças, daquelas assustadoras com nuclear na mesma frase.

Paragem

 Quase dois anos sem dar sinal de vida. Acontece. Uma pessoa mergulha no imediatismo das redes sociais e esquece-se de que tem um espaço sólido, firme e duradouro. Mas mais vale tarde do que nunca. Regressemos, pois, às crónicas, aos apontamentos curtos, para não cansar.

Nestes dois anos, observamos a continuidade da guerra da Ucrânia, a ofensiva desproporcionada à Faixa de Gaza, a eleição de Donald Trump e a nova composição da União Europeia, onde um português é a segunda figura mais importante.

Por cá, assistimos à destronização do Partido Socialista e ao fim da alternância partidária característica primeira da nossa democracia. Assistimos, também, ao escalar exuberante do partido de grande Direita (não sei se extrema-direita será o mais acertado) que tem levado a cabo desinformação e mais desinformação, trazendo para o palco do debate a imigração e mais imigração, a reforma da constituição e do sistema penal.

As televisões também não têm ajudado nada, servindo-se de um batalhão de comentadores, todos com uma agenda bem definida.

Portanto, continuamos pequeninos e rabinos. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

A História de Portugal Reinventada

 Encalhei com este texto por aí. 

Com a crise política que se instalou ontem no país, olhemos para o passado e avaliemos tudo o que nos impingiram nos manuais. 

Valha-nos o nosso sorriso!

Tudo começou com um tal Henriques que não se dava bem com a mãe e acabou por se vingar na pandilha de mauritanos que vivia do outro lado do Tejo. Para piorar ainda mais as coisas, decidiu casar com uma espanhola qualquer e não teve muito tempo para lhe desfrutar do salero porque a tipa apanhou uma camada de peste negra e morreu.
  Pouco tempo depois, o fulano, que por acaso era rei, bateu também as botas e foi desta para melhor. Para a coisa não ficar completamente entregue à bicharada, apareceu um tal João que, ajudado por um amigo de longa data que era afoito para a porrada, conseguiu pôr os espanhóis a enformar pão e ainda arranjou uns trocos para comprar uns barcos ao filho que era dado aos desportos náuticos. De tal maneira que decidiu pôr os barcos a render e inaugurou o primeiro cruzeiro marítimo entre Lisboa e o Japão com escalas no Funchal, Salvador, Luanda, Maputo, Ormuz, Calecute, Malaca, Timor e Macau .
  Quando a coisa deu para o torto, ficou nas lonas só com um pacote de pimenta para recordação e resolveu ir afogar as mágoas, provocando a malta de Alcácer-Quibir para uma cena de estalo. Felizmente, tinha um primo, o Filipe, que não se importou de tomar conta do estaminé até chegar outro João que enriqueceu com o pilim que uma tia lhe mandava do Brasil e acabou por gastar tudo em conventos e aquedutos. Com conventos a mais e dinheiro menos, as coisas lá se iam aguentando até começar tudo a abanar numa manhã de Novembro. Muita coisa se partiu. Mas sem gravidade porque, passado pouco tempo, já estava tudo arranjado outra vez, graças a um mânfio chamado Sebastião que tinha jeito para o bricolage e não era mau tipo apesar das perucas um bocado amaricadas.
  Foi por essa altura que o Napoleão bateu à porta a perguntar se o Pedro podia vir brincar e o irmão mais novo, o Miguel, teve uma crise de ciúmes e tratou de armar confusão que só acabou quando levou um valente puxão de orelhas do mano que já ia a caminho do Brasil para tratar de uns negócios. A malta começou a votar mas as coisas não melhoraram grande coisa e foi por isso que um Carlos anafado levou um tiro nos coiratos quando passeava de carroça pelo Terreiro do Paço. O pessoal assustou-se com o barulho e escondeu-se num buraco na Flandres onde continuaram a ouvir tiros mas apontados a eles e disparados por alemães. Ao intervalo, já perdiam por muitos mas o desafio não chegou ao fim porque uma tipa vestida de branco apareceu a flutuar por cima de uma azinheira e três pastores deram primeiro em doidos, depois em mortos e mais tarde em beatos. Se não fosse por um velhote das Beiras, a confusão tinha continuado mas, felizmente, não continuou e Angola continuava a ser nossa mesmo que andassem para aí a espalhar boatos. Comunistas dum camandro! Tanto insistiram que o velhote se mandou do cadeirão abaixo e houve rebaldaria tamanha que foi preciso pôr um chaimite e um molho de cravos em cima do assunto. Depois parece que houve um Mário qualquer que assinou um papel que nos pôs na Europa e ainda teve tempo para transformar uma lixeira numa exposição mundial e mamar duas secas da Grécia na final.

 E o Cavaco e o Sócrates?

 O Cavaco foi com o Pai Natal e o Sócrates e o palhaço no combóio ao circo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Tempos Difíceis

 Desde há dois anos que andamos em sobressalto. 

Primeiro foi a pandemia que virou a nossa do avesso. E, apesar dos arco-íris do "Vai ficar tudo bem", a verdade é que as nossas rotinas e hábitos foram configurados para um antes de e um depois de. 

O início de 2022 trouxe alguma acalmia. Mas em fevereiro chegou a guerra. No tempo de vida da Europa unida, nunca tinha havido uma guerra tão chegada às suas fronteiras externas. 

E a nossa vida tornou a guinar. Instalou-se a crise energética. Dispararam os preços de tudo e de mais alguma coisa. Para compor o cenário catastrófico, ronda a ameaça da agudização do conflito com o recurso ao armamento nuclear.

Ora bolas! A década de 20 deste século ainda criança começou bem e ... não se recomenda.

Uma guerra não contempla vencedores ou vencidos em termos de sofrimento, dor e perda. Os mortos civis têm pai, mãe e filhos, e os mortos militares também. Qualquer que seja a nossa perspetiva ou opinião sobre as causas, fundamentos e argumentos dos interventores, não podemos nem devemos perder de vista que em ambos os lados há tragédias.

Erich Marie Remarque plasmou no livro "A Oeste Nada de Novo" o desencanto dos jovens recrutas imbuídos de patriotismo perante a realidade da frente de batalha.

Aqui deixo a leitura do início da obra.


quinta-feira, 3 de novembro de 2022

As Redes e a Comunicação

 Nos últimos trinta anos, a necessidade de ampliar a comunicação entre as pessoas tornou fértil o terreno das redes sociais.

E é no subsolo deste conceito que entram em cena as minhas raízes familiares, formatadas no mar, e nas ditas. Tornámo-nos cardumes vagueando pelos mares intercontinentais, explorando as redes, num entra e sai para quebrar a ociosidade.

No início, a rede era pequena. Dominava a pesca à linha ou ao corrido nos mails que nos inundavam a caixa com carradas de powerpoints e fotografias de tudo e mais alguma coisa.

Quase em simultâneo encetámos a descoberta do caminho digital para as mensagens de telemóvel, com figurinhas engendradas nos símbolos do teclado e textos de correntes morais que incitavam à partilha.

Eis senão quando aparece a primeira rede verdadeiramente social, o Hi5. Foi assim uma espécie de arte da xávega, limitada ao tamanho da rede, à profundidade e às ferramentas. O cardume arrumava-se por potências de 5, num esquema espiral, onde o nome contava pouco numa competição com o avatar mais apelativo e destravado.

Já o século tinha deixado a idade da lactância, apareceu o Facebook. A rede era de malha larga e o cardume desenvolveu uma variante da palavra amizade. A fotografia passou a ser obrigatória para se reconhecerem os amigos e as amigas. Mesmo que não se falem na rua ou no bairro, nesta rede todos partilham a retenida e o cerco cresce à conta das sugestões do algoritmo.

Já o oceano da comunicação se começava a compor de cardumes variados, alguns dos quais desconhecidos, apareceu o Twitter, uma rede mais larga e robusta para cardumes mais sofisticados e opinativos. Juntou peixes pequenos com peixes grandes. A hierarquia da cadeia alimentar ditou o elitismo de uns e a exacerbação no discurso de outros. Instalou-se um progressivo caos nas espécies.

O Instagram forneceu aos cardumes o espelho para se mirarem. Desde as mais rotineiras atividades como comer ou dormir às mais esquisitas ou mirabolantes aventuras, o cardume deixou-se apanhar pelos cliques das redes de emalhar. muito finas e transparentes, para dar a conhecer o seu modo de vida.

Os cardumes mais aventureiros e apreciadores de iscos elaborados encontraram no Tinder a rede apropriada para a continuação da espécie. A comunicação entrou no campo da relação íntima onde só importa o que é visível aos olhos. Valorizou-se o brilho da escama, o vermelho da guelra, a cor da barbatana, seja peitoral ou caudal.

Atualmente, e fazendo jus às preocupações com o meio ambiente e aos gritos de "Salvem o Planeta!", proclamou-se a biodiversidade e a rede afrouxou os seus nós, flexibilizou a malha e espraiou-se para as margens secas e arborizadas, permitindo a miragem da fusão do meio aquático com o terrestre. É a época da rede Mastodont. Libertária, sem bóias nem chumbos, oferece ao cardume a escolha de navegar ao sabor da maré e do vento. 

Certamente outras se redes se seguirão, a menos que os cardumes desistam de comunicar e se enfiem em cavernas silenciosas.